Fogo na Floresta: A Luta Pela Vida na Reserva de Sooretama e a Urgência de Repensar a Preservação
Por Coronel Wagner
No dia 29 de fevereiro de 1998, um dos incêndios florestais mais intensos da história do Espírito Santo teve início na Reserva Biológica de Sooretama, no norte do estado.
O que se seguiu foram 45 dias de combate ininterrupto às chamas, em meio à densa e fechada Mata Atlântica. Mais de 2 mil hectares foram destruídos. Mas o que os números não revelam é o drama humano vivido por dezenas de bombeiros, militares e voluntários que arriscaram suas vidas ali dentro — eu fui um deles.
Na época, eu era tenente do Corpo de Bombeiros. Atuávamos em duas frentes: uma sob meu comando, e outra sob o comando do então Tenente Tavares, da Polícia Ambiental.

O combate era exaustivo e o calor das chamas praticamente insuportável. Por volta das 15h de um dos dias mais críticos, o impensável aconteceu: o fogo nos cercou completamente. Mais de 40 homens estavam presos no coração da floresta, dentro de um círculo de fogo.
Mesmo com preparo técnico e psicológico, é impossível não sentir um frio na barriga diante da possibilidade real de que aquele poderia ser nosso fim. Tomamos uma decisão difícil: atacar o ponto mais frágil da “muralha de fogo” para abrir passagem. Deixamos para trás equipamentos pesados — abafadores, enxadas, bombas costais — e começamos a subir em direção à possível saída. Mas o fogo parecia nos seguir, como se nos escutasse.
Foi então que uma voz surgiu no rádio: o Capitão Caos, comandante de uma das aeronaves do Notaer, informava que estávamos cercados novamente e que era urgente abrir uma clareira para permitir o resgate antes do anoitecer. Sem possibilidade de voo noturno, aquela era nossa única chance.
A clareira foi aberta às pressas. O helicóptero se aproximava perigosamente das árvores — a menos de dois metros das copas — enquanto embarcávamos, um a um, numa operação tensa e arriscada. Ao final, restavam ainda nove homens no chão. O helicóptero só comportava cinco.
Foi nesse momento, quando decidimos que eu, Tavares e mais dois ficaríamos, que ouvimos a frase que jamais esqueci:
“Ou sai todo mundo, ou morre todo mundo. Não desloco essa aeronave sem que todos estejam a bordo.” — Capitão Caus
Faltavam cinco minutos para o fogo nos atingir. Pendurados em cordas e no Sky, fomos içados acima do limite da capacidade da aeronave.
Quase ao chegar à área de pouso em Córrego do Rodrigues, o helicóptero perdeu estabilidade por causa do peso. A apenas oito metros do chão, pulamos em meio a uma plantação de café.

Com precisão e, talvez, um toque divino, o piloto conseguiu pousar sem que a aeronave tombasse.
Todos sobreviveram.
E Depois do Fogo?
Após esse episódio, o Governo do Estado investiu em equipamentos modernos, aeronaves e treinamentos. Avançamos. Mas uma questão ainda me inquieta até hoje:
Por que o Governo Federal, por meio dos órgãos ambientais, não autoriza a instalação de sistemas de combate a incêndios dentro das reservas florestais?
A justificativa, muitas vezes, é a preservação. Mas precisamos repensar o que realmente significa preservar. Proibir estradas de acesso, impedir instalações de apoio e tornar as reservas florestais áreas totalmente intocáveis pode parecer proteção, mas, na prática, é deixá-las à mercê do fogo — como ocorreu em Sooretama.
Preservar não é isolar. É usar com sabedoria.
É educar novas gerações, promover pesquisa, criar condições de acesso seguro e, principalmente, garantir meios eficazes de resposta em situações críticas como incêndios.
De que adianta proteger a floresta do homem, se não conseguimos protegê-la do fogo?
E Você, o Que Pensa Sobre Isso?
Será que estamos aproveitando de forma consciente os recursos das nossas florestas? Estamos realmente preservando ou apenas abandonando?
Deixe seu comentário, compartilhe essa história, e vamos juntos refletir sobre o futuro das nossas reservas naturais. Porque o que está em jogo não é apenas o verde das árvores — é a vida que pulsa em cada pedaço de mata.

31 anos de serviço público. Ex-comandante dos Bombeiros em diversas cidades do ES, ex-secretário de Defesa Civil, perito em emergências e gestor público. Criador do projeto Mãe Prevenida, que já capacitou mais de 42 mil mães. Cristão, conservador e defensor da liberdade de expressão.


