O frio que congela a memória e a escolha que pode aquecer o futuro

O frio que congela a memória e a escolha que pode aquecer o futuro

Por Coronel Wagner

O inverno de 2013 ainda vive na memória de quem o enfrentou. Entre os dias 21 e 26 de julho, uma massa de ar polar vinda da Antártica avançou sobre o Sul e Sudeste do Brasil, trazendo consigo um frio cortante, implacável. Era como se a natureza estivesse tentando nos dizer algo — e talvez estivesse.

Poucos meses depois, em dezembro do mesmo ano, o Espírito Santo foi posto à prova de uma forma ainda mais cruel. A partir do dia 10, durante 17 dias seguidos, chuvas intensas caíram sem trégua. O resultado foi devastador: mais de 55 municípios em situação de emergência ou calamidade pública. Mais de 55 mil pessoas sem teto. Vinte e quatro vidas perdidas.

Eu estava lá.

Na época, atuava como Capitão do Corpo de Bombeiros. Fui responsável por implantar o Sistema de Comando de Operações (SCO) nos municípios do Norte e Noroeste capixaba, os mais atingidos. Lembro das madrugadas sem sono, dos voos com o NOTAER entre cidades devastadas. Em muitos locais, sem áreas para pouso, descíamos por cordas no meio do caos — lama, silêncio, desespero. O cheiro da enchente, o olhar de quem perdeu tudo. Essas imagens me acompanham até hoje.

Agora, doze anos se passaram. Os ventos frios que voltam a soprar me trazem de volta aquelas memórias. Mas o que mais dói não é o que vivemos — é saber que muito pouco mudou. Nossas cidades continuam vulneráveis, frágeis diante da força da natureza. As áreas de risco ainda estão lá, expostas, ignoradas. A pergunta que não cala: por que, mesmo com obras de macrodrenagem, não há investimento em microdrenagem nos bairros, onde a água se acumula e destrói?

Cidades como Vila Velha e Vitória seguem alagando com frequência assustadora. Vila Velha, por exemplo, tem mais de 900 ruas pavimentadas sem nenhum sistema de drenagem. Mais de 80% das estruturas atuais são da década de 80 — antigas, entupidas, esquecidas.

E a resposta, por mais dura que pareça, está diante de nós: isso acontece porque continuamos votando mal.

Sim. Seguimos trocando políticas públicas sérias por promessas fáceis. Preferimos a ilusão de uma praça nova, de uma calçada pintada, a exigir soluções de verdade para problemas como saneamento, educação, segurança, drenagem urbana. E enquanto isso, tragédias se repetem. Famílias sofrem. Pessoas morrem.

A verdade é que nenhum prefeito, governador ou vereador chega ao poder sem o nosso voto. E é esse voto que pode transformar ou condenar nossa cidade.

Se queremos viver em cidades mais humanas, mais seguras, mais preparadas, precisamos despertar. Precisamos aprender a votar com responsabilidade, com consciência, com exigência. Não podemos mais nos contentar com o mínimo, quando temos o poder de cobrar o máximo.

O ano de 2026 se aproxima. E com ele, uma nova chance. A oportunidade de mudar o rumo, de quebrar o ciclo, de dizer “basta” aos mesmos erros.

Que a dor do passado não se repita por negligência no presente. Que a próxima escolha seja feita com a cabeça, mas também com o coração — o coração de quem se importa com o lugar onde vive e com as vidas que ali habitam.