Inteligência Artificial: entre o apocalipse e a integração

Tecnologias beneficiam ou prejudicam a humanidade? A pergunta é inevitável diante da inteligência artificial, ou IA. O ChatGPT, o Grok e as tantas outras causam espanto e obrigam a ponderar o assunto mais uma vez. Verdade seja dita, o espanto é exagerado: a rapidez desses brinquedos não significa inteligência, senciência ou livre arbítrio. De qualquer forma, sabemos estar diante de uma novidade que afeta nosso modo de vida de forma imprevisível e irreversível, o que exige meditação.
Para usar uma expressão de Umberto Eco, a reação diante de tecnologias costuma se dividir entre apocalípticos e integrados. Os apocalípticos afirmam com gravidade que as tecnologias são maléficas. Os integrados declaram com deslumbre que elas são benéficas. O próprio Umberto Eco avisa que o problema dessas posturas é o extremismo; mas esses extremos ainda são os mais representativos do estado atual da discussão.
A ficção retrata essa disputa de forma profusa. Filmes como “O Exterminador do Futuro” denunciam as tecnologias de forma apocalíptica. Desenhos como “Os Jetsons” celebram-nas de forma integrada. Diante de nossos smartphones, videogames e câmeras digitais, pode ser fácil simplesmente concordar com ambos. A ambivalência é inescapável, e isso às vezes nos confunde. Como no dilema do coração de Fausto: duas almas, ai!, moram em meu peito.
Os extremos dos apocalípticos e dos integrados parecem inconciliáveis, mas em verdade são compatíveis. Ambos estão corretos: tecnologias são benéficas e também maléficas. Não existe contradição nisso. É um pacote completo. Adotando tecnologias, estamos nos beneficiando e também nos prejudicando. A grande dificuldade está em responder onde começa e onde termina o benefício e o malefício.
Para obter essa resposta, podemos recorrer aos comentários de Sócrates sobre a escrita. Eles estão contidos no diálogo “A República”. Nele, o filósofo comenta de como o uso dessa tecnologia prejudica os homens. Contando com o amparo da escrita, nossa memória enfraquece. Sócrates não afirmou que o malefício viria se fizéssemos mau uso da novidade. O uso em si da escrita teria essa conseqüência. O mesmo vale para qualquer tecnologia, inclusive inteligência artificial. O benefício e o malefício são simultâneos.
O trágico dessa situação é que percebemos os benefícios de imediato e os malefícios, tarde demais. Para usar uma expressão de Fréderick Bastiat, o benefício é o que se vê; e o malefício, o que não se vê. A novidade causa o entusiasmo de um novo brinquedo. Os benefícios logo ficam evidentes. A adoção da novidade é irrestrita, quando não imposta. Mais tarde, quando estamos dependentes da tecnologia, percebemos seu preço amargo.
Quanto à IA, seus reveses são fáceis de prever. Assim como a escrita enfraquece a memória, a IA enfraquece a capacidade de intuir, de investigar, de criar. A IA não surge com o propósito de realizar esforços considerados repetitivos e desumanos. Pelo contrário: a IA tem sido desenvolvida justamente para substituir tarefas caracteristicamente humanas, como aquelas ligadas à criatividade.
Ironicamente, a IA pode um dia comprometer a própria IA. Empresas de tecnologias adotam cada vez mais a noção de “AI first”: usar dessa Inteligência para substituir tarefas de desenvolvedores júniores. Isso desestimula a carreira no setor. No futuro, será cada vez mais difícil encontrar desenvolvedores sêniores. A própria IA, que depende desse tipo de profissional, avançará com dificuldade.
Apesar disso, a experiência histórica demonstra que a tecnologia é uma marcha inescapável. Um dos motivos mais evidentes disso é também o mais óbvio: não há prêmios por desistir de se lançar uma tecnologia; não há recompensas para quem desista de criar algo que possa ser perigoso. Por tudo isso, o que ocorre entre o apocalipse e a integração não é uma disputa, mas uma marcha. Não vivemos um dilema entre ser apocalíptico ou integrado. Na verdade, começamos integrados — e terminamos apocalípticos.
(Ilustração: Geralt / Pixabay)

Jornalista, Gestor Público e especialista em planejamento e gestão estratégica e atua como empresário na área de comunicação e marketing político.







