Oportunidade para mudar
Por Luiz Paulo Vellozo Lucas
Participo ativamente de eleições no Brasil desde 1974. Nestes mais de 50 anos fiz muita campanha, comícios-relâmpago em ônibus, panfletagens, comícios, boca de urna, colei cartaz e até fiz pichações. Milhares de horas de reunião, planos, manifestos, textos, propagandas, programas de radio e televisão.
Vinte anos depois, em 1994, disputei minha primeira eleição empolgado com o Plano Real e com a perspectiva de ter Fernando Henrique Cardoso na presidência da república. Meu slogan de campanha para deputado federal pelo PSDB-ES era: “É tempo de qualidade na política.”
Relembrando meio século de politica é muito interessante observar como cada uma destas eleições mudaram o país de alguma maneira. Apuradas as urnas, o país amanhece diferente. A correlação de forcas se altera com a vitória de alguns e a derrota de outros. Teses e ciclos se abrem e se fecham. Nas eleições de 1974 a ditadura foi derrotada junto com o voto nulo e o charme equivocado da luta armada, já vencida militarmente pelo regime. Dez anos depois o Brasil elegeria Tancredo Neves em eleições indiretas, pondo fim à ditadura militar.
As eleições diretas de 1989 derrotaram Ulisses Guimarães, Leonel Brizola e até Mario Covas que representava um caminho moderno e reformista muito mais sensato com seu choque de capitalismo social democrata do que o vitorioso Collor de Mello.
A ascensão meteórica de Collor fortalece o ideário liberal e a agenda de reformas do estado brasileiro, desenhado para a substituição de importações desde o fim da segunda guerra.
A vitória de Lula em 2002, com suas promessas de moderação e continuidade da “Carta aos brasileiros” confirmadas em sua primeira equipe econômica e nas medidas iniciais de reconquista da confiança dos mercados na estabilidade macroeconômica do Brasil duramente conquistada, parecia apontar para um futuro de progresso e o fim da demagogia em matérias fundamentais para a Republica.
Ao contrário, a opção pela construção de base congressual para o governo petista, pela via mercenária exposta com o escândalo do mensalão no Lula 1, inaugura um caminho muito diferente de populismo exacerbado, extremismo e retrocesso. Um ciclo de vinte quatro anos de crise política e institucional que enfraqueceu paulatinamente a confiança no futuro do Brasil e que pode ou não ser interrompido e se encerrar nas próximas eleições presidenciais.
O vale tudo da cooptação e uso pesado da máquina pública domina o processo eleitoral em todos os níveis. Demagogia e marquetagem digital no atacado e no varejo dificultam e ofuscam o debate sobre o interesse público apequenando o capital cívico do país. O que está em jogo em 2026 não é direita versus esquerda. É a qualidade da política, a confiança na democracia e a valorização do voto.
As eleições proporcionais para deputado estadual e federal serão realizadas em ambiente dominado pela força da manipulação eleitoral de transferências voluntárias de recursos, sufocante demagogia governamental e festival de emendas orçamentárias.
Celebridades e surfistas ideológicos envolvidos em guerras culturais no ambiente digital disputarão a atenção e o voto em nominatas dos partidos políticos de todos os lados. Mudar o sistema proporcional para distrital misto é uma proposta que merece ser discutida com seriedade. Com o voto distrital misto o voto é majoritário nos distritos para metade dos eleitos onde vale a forca eleitoral individual dos candidatos apresentados por cada partido. Para a outra metade vale o prestigio das listas pré ordenadas apresentadas pelos partidos. Espero que 2026 seja a ultima eleição proporcional.
As eleições majoritárias no nível regional para governador e senador testarão simultaneamente, o prestígio eleitoral dos incumbentes estaduais e as candidaturas emergentes vinculadas ou não aos polos radicalizados do PT e do bolsonarismo raiz remanescente na sociedade.
Frentes heterogêneas terão dificuldades de se formar em função da verticalização extra oficial dos palanques nacional e estadual e as dificuldades na formação de chapas competitivas em disputas pelos, assim chamados, “puxadores de voto”.
Para a presidência da república vamos verificar se o favoritismo do projeto Lula 4 se confirma e se as contradições do bolsonarismo impedirão ou não que se configure um projeto eleitoral democrático, moderno, amplo e competitivo capaz de apontar o rumo do Brasil pós PT e vencer a disputa.

Engenheiro, Mestre em Desenvolvimento Sustentável, ex-prefeito de Vitória-ES e membro da ABQ-Academia Brasileira da Qualidade.


