Privacidade intelectual ou o “clube da luta” para idéias

Privacidade intelectual ou o “clube da luta” para idéias

Todos temos perguntas que preferimos não fazer. Há raças humanas? Haveria regime político melhor do que a democracia? Vacinas seriam de fato necessárias? Podemos confiar nos resultados eleitorais? Mais do que desconfortável, perguntar isso pode ser arriscado. Algumas dessas perguntas estragam reuniões familiares. Outras são até mesmo vedadas por lei. Mas proibir uma pergunta não significa que esteja errada. Antes, significa que não queremos que seja feita. Pois a verdade é que a lei e a etiqueta são incapazes de abolir a dúvida: mais do que um passatempo, exercer a curiosidade é um exercício indispensável à sobrevivência e à nossa própria humanidade.

Perguntas não podem ser caladas, mas apenas respondidas. Cedo ou tarde elas revindicam resposta. É o que ocorre principalmente às mais filosóficas, daquelas inescapáveis durante um churrasco ou uma tarde de café. Algumas dessas respostas talvez não afetem nossas decisões cotidianas; mas muitas delas podem afetar decisões vitais. Concluir que raças humanas existem pode gerar novos critérios para nos casarmos. Concluir que Deus existe nos leva a planejar a vida de outra forma. Em longo prazo, as respostas podem até mesmo organizar uma nação inteira. São atitudes cruciais que começam nesse tipo de pergunta abstrata, lançada numa mesa de bar e aparentemente desconexa da prática.

Pois, antes de fazermos essas perguntas, precisamos responder onde devemos fazer essas perguntas. O debate público parece ser o local óbvio; mas a verdade é esse debate se tornou hostil às dúvidas, regulado demais, mantido apenas para forjar consensos. Por exemplo, em um certo país, fazer as perguntas erradas sobre vacinas pode ser punido com cadeia ou perda da guarda dos filhos. Por sinal, nesse mesmo país, admitir que lemos certos autores é crime, mesmo que seja para apontar e denunciar os erros deles. A situação piora com a Internet, que amplia o alcance da mensagem, deixa traços, cria provas, expõe a mais riscos. Por tudo isso, uma possível solução é seguir na contramão e reduzir o alcance do debate. Isso pode ser feito por meio das “comunidades de privacidade intelectual”, idéia proposta por autores como Neil Richard e Rod Dreher.

Uma comunidade de privacidade intelectual é formada por membros de confiança com afinidades semelhantes. Eles se reúnem de corpo presente para levar suas perguntas, defender suas teses e confrontar as antíteses dos demais membros. O clima pode ser amenizado com chá, café ou churrasco: verdade seja dita, a experiência pode ser desconfortável. Uma tarde de debates intelectuais desse tipo soa idílica e poética como “O Banquete” de Platão; mas a prática está muito mais próxima das reuniões truculentas do “Clube da Luta”, filme marcante da década de 1990.

Como no “clube da luta” do filme, a primeira regra mais importante é também a segunda mais importante: não fale a ninguém sobre a comunidade de privacidade intelectual. Entre outras implicações, isso significa que toda idéia confrontada ou formulada deve ser considerada imatura ou inconclusiva, não podendo por regra ser exposta fora dali. A única possibilidade de isso acontecer é se o membro considerar sua própria idéia madura o suficiente para expô-la fora do clube. Se o fizer, o membro deve assumir por si só os riscos e as conseqüências disso, jamais comentando da comunidade a ninguém, jamais a usando como atenuante de sua “crimidéia”.

É provável que poucos tenham notado como a “privacidade intelectual” lembra um “clube da luta”. A comparação é desconfortável, mas pode ser reveladora. Se estamos falando de “clube”, queremos lembrar a importância da privacidade. Se estamos falando de “luta”, queremos lembrar que idéias precisam de confronto para amadurecer. No debate público, “privacidade” e “confronto de idéias” tornaram-se conceitos subversivos, principalmente depois da quarentena, com todo aquele esforço para fabricação de consensos em torno das medidas sanitárias. Por tudo isso, as perguntas reclamam outros espaços para se manifestarem. As “comunidades de privacidade intelectual” talvez não sejam o fim dessa busca. Mas podem ser um bem-vindo início.