O arquiteto da vitória: Erick Musso e o novo governo do ES

O arquiteto da vitória: Erick Musso e o novo governo do ES

Coordenador da transição de Lorenzo Pazolini, presidente do Republicanos no Espírito Santo e três vezes presidente da Assembleia Legislativa, Musso consolida na política capixaba a mais difícil das obras: a de articular e ver o projeto coletivo vencer

Há vitórias que se medem em votos e vitórias que se medem em poder. Erick Musso conhece as duas. Nas urnas de outubro, não saiu vitorioso na disputa pela Câmara Federal. Mas o que se construiu em volta dele nos dias seguintes diz muito mais sobre o seu peso político do que qualquer apuração: o presidente estadual do Republicanos foi o primeiro nome anunciado por Lorenzo Pazolini para coordenar a equipe de transição do governo que assume em 6 de janeiro de 2027 e foi o articulador central de uma vitória que ele abraçou quando ela ainda era apenas uma aposta.

O ofício foi protocolado no Palácio Anchieta às 18h46 da última terça-feira (27), pelo sistema E-Docs, com fundamento no artigo 85-A da Constituição do Estado. É uma formalidade, mas o que ela registra não é pequeno: Lorenzo Pazolini escolheu Erick Musso para conduzir a equipe de transição, o período em que o próximo governo mapeia a máquina, levanta contratos, identifica pendências e define prioridades antes de assumir. Em outras palavras, quem coordena a transição começa a governar antes da posse.

E não é uma tarefa de vitrine. É o trabalho de quem precisa conhecer cada pasta, cada secretaria e cada compromisso assumido pelo Estado e transformar esse diagnóstico em decisão política. Para um governador recém-eleito, delegar esse mapeamento a alguém significa dizer, sem dizer: confio na sua leitura do Estado e na sua capacidade de conduzir.

Pazolini venceu com 1.151.818 votos, 52,17% dos válidos, contra 1.056.119 de Ricardo Ferraço. Vitória consistente, construída sobre uma máquina estadual em pleno exercício. Campanhas assim não se ganham somente com discurso: se ganham com articulação, costurar apoios, acomodar interesses, transformar siglas em votos e votos em maioria. Foi esse o trabalho que Musso conduziu desde o primeiro turno, quando a candidatura do Republicanos ainda precisava provar viabilidade.

E não foi somente com articulação de gabinete. Ao lado de Pazolini, Musso rodou o interior capixaba em caminhadas, carreatas e corpo a corpo nas ruas. E ali, longe das mesas de negociação, apareceu o gesto que talvez melhor traduza o seu papel nesta eleição: era ele, muitas vezes, quem segurava o microfone do carro de som para fazer a locução. Ex-presidente da Assembleia por três mandatos, presidente do partido que lançava o candidato, narrando o nome do outro, exaltando o outro, puxando o coro para o outro. Poderia haver um locutor oficial. Havia: ele. Candidato a deputado federal naquele mesmo pleito, tinha estrutura e palanque próprios para disputar votos. Optou por subordinar a própria campanha a uma causa maior: a eleição de Pazolini. É a medida exata de um líder que sabe se despir da vaidade quando o projeto exige e que entende que existem pleitos em que a vitória pessoal não é o objetivo principal.

A palavra que valeu mais que um mandato

Para entender por que o governador eleito confiou a ele a transição, é preciso voltar quatro anos. Em 2022, Erick Musso tinha nas mãos um caminho seguro: disputar a Câmara Federal e, muito provavelmente, sair eleito. Havia espaço, havia estrutura, havia leitura eleitoral favorável. Ele não fez isso.

Muito antes da eleição, anunciou que não seria candidato à reeleição como deputado estadual, decisão que abriu espaço para que aliados do grupo disputassem aquelas cadeiras (Republicanos elegeu 4 deputados estaduais e 2 federais), inclusive deputados estaduais com projeto de subir para Brasília. E manteve a palavra quando poderia tê-la relativizado. Em vez de recuar para uma zona de conforto, foi disputar o Senado, o terreno mais difícil daquele pleito. A consequência todos conhecem: não venceu. A causa, poucos registram: ele não trocou o compromisso pela conveniência.

Esse tipo de escolha não rende mandato, mas rende algo mais durável. Rende coesão. Foi no período em que poderia ter se salvado sozinho que Musso consolidou a característica que hoje o define: a de um líder que prefere o grupo inteiro forte a um resultado pessoal garantido. Em política, esse capital não aparece em pesquisa. Aparece na hora de montar um governo ou de garantir maioria em um parlamento.

Uma década de escola na máquina

A trajetória de Musso foi construída onde a política capixaba de fato se aprende: no cotidiano do Legislativo. Neto de Heraldo Barbosa Musso, ex prefeito de Aracruz por dois mandatos e ex deputado estadual por três legislaturas, ele cresceu dentro dessa escola antes de frequentá-la por conta própria. A linhagem é mais antiga ainda: o bisavô, Luiz Theodoro Musso, também foi vereador e prefeito do município, entre 1948 e 1951. Formou-se gestor público, fez-se vereador em Aracruz em 2012, como o mais votado da cidade, presidiu a Câmara Municipal e chegou à Assembleia Legislativa em 2014. Reelegeu-se em 2018 e, no Legislativo estadual, alcançou o posto que consolidaria seu nome: a Presidência da Ales, exercida por três biênios consecutivos, entre 2017 e 2022.

São números que escondem o essencial. Presidir a Assembleia por seis anos seguidos significa atravessar governos de campos distintos (Paulo Hartung e Renato Casagrande) sem perder o comando do colégio de líderes. Significa conduzir um plenário de 30 deputados com interesses heterogêneos e transformar divergência em pauta possível. Significa, acima de tudo, saber contar votos antes que eles existam.

Em 2023 assumiu a presidência estadual do Republicanos. Em 2024, coordenou a reeleição de Pazolini em Vitória. Em 2026, tentou a Câmara Federal e terminou na suplência. A sequência mostra um padrão raro: nem a derrota eleitoral nem o tempo interromperam sua curva de influência. Apenas a deslocaram para onde ela se torna decisiva.

A chave da governabilidade

É aqui que o papel de Musso ganha contorno estratégico. A nova composição da Assembleia Legislativa renovou mais da metade das 30 cadeiras: 16 novos nomes chegam ao plenário em fevereiro. Renovação em massa é sinônimo de recomeço de relações. Cada um desses deputados precisa ser apresentado a um governo que ainda está sendo montado e o governo precisa aprender a conversar com eles.

Governar sem maioria é administrar em suspenso. E maioria não se constrói por decreto: se constrói no diálogo, na escuta e na capacidade de fazer o parlamento se reconhecer no projeto do Executivo. Musso já demonstrou esse domínio quando se viabilizou presidente da Assembleia e se reelegeu por mais dois biênios. Agora, aplicará a mesma lógica em favor de um governo inteiro.

A transição, aliás, já nasce com densidade técnica. Nesta quarta-feira (28), o economista Regis Mattos Teixeira, ex-secretário de Economia e Planejamento e hoje à frente da Fazenda de Vitória, foi anunciado como segundo nome do grupo, responsável pelo levantamento financeiro e operacional do Estado. A Musso cabe o que nenhuma planilha resolve: o desenho político da nova gestão e a articulação com lideranças políticas, religiosas e sociais na definição das prioridades.

Centralidade, a vitória que não depende de mandato

Erick Musso não estará na Câmara dos Deputados. Estará, muito provavelmente, em todos os lugares onde as decisões do Espírito Santo serão tomadas. Saiu de uma eleição sem cadeira e entrou nela com algo mais durável: centralidade.

Em um estado que acaba de eleger um governador de 44 anos, com perfil técnico e base ampliada, o que se desenha é uma equação de confiança. Pazolini tem o comando. Musso tem a chave que abre as portas onde o comando se transforma em governabilidade. E, em política, é essa chave que define quem permanece quando o ciclo eleitoral termina.

Ele é um dos grandes vencedores desta eleição. Não pelos 53.726 votos que recebeu, expressivos, mas insuficientes, e sim pelo projeto que ajudou a fazer vencer.