Seis mulheres, 16 nomes novos e o PL maior: a Assembleia que o Espírito Santo escolheu

Seis mulheres, 16 nomes novos e o PL maior: a Assembleia que o Espírito Santo escolheu

Com 100% das urnas apuradas, o Estado definiu os 30 deputados estaduais que tomam posse em 1º de fevereiro de 2027

O Jornal do ES traz a votação de cada eleito, o perfil de quem chega e a leitura política de uma legislatura que nasce mais feminina, mais fragmentada e com o bolsonarismo à frente, mas sem maioria folgada.

O Espírito Santo fechou a conta da sua próxima Assembleia Legislativa. Neste domingo (4), com 100% das urnas apuradas, os capixabas definiram os 30 nomes que vão ocupar a Ales no mandato 2027–2030, em uma eleição que combinou renovação acima da metade do plenário, consolidação do PL como maior bancada e um marco que a Casa nunca havia registrado: pela primeira vez, seis mulheres foram eleitas deputadas estaduais em uma mesma legislatura.

A posse está marcada para 1º de fevereiro de 2027, uma segunda-feira, às 10h, em sessão preparatória coletiva no Palácio Domingos Martins, em Vitória. Antes disso, a Justiça Eleitoral tem até 18 de dezembro para concluir a diplomação de todos os eleitos, etapa formal que garante o mandato. Até 31 de janeiro, véspera da posse, cada deputado deve entregar à Ales sua declaração de bens e indicar o nome parlamentar com que vai exercer o mandato. O juramento é coletivo: o presidente da sessão presta o compromisso em nome dos 30, e cada um responde “assim o prometo” quando chamado, em ordem alfabética.

O desenho das urnas: PL na frente, plenário fragmentado em dez partidos

O PL sai da eleição como o partido mais forte da política estadual, com seis cadeiras, um quinto do plenário. Na sequência aparece a Federação União Progressista, com cinco (quatro do Progressistas e um do União), seguida de Podemos, MDB e Progressistas com quatro cada, considerando o PP isolado, PT e PSB com três, Republicanos e AGIR com dois e PSOL com um.

Na prática, dez legendas dividem 30 cadeiras. É a tradução exata de um eleitorado que pulverizou o voto: nenhum partido chega perto da maioria simples, e cada pauta da próxima legislatura nascerá da negociação entre blocos. O PL terá a maior bancada, mas governar a Casa exigirá mais articulação do que força numérica.

A renovação também tem número: 14 deputados foram reeleitos e 16 são novatos ou retornam à Casa, o que representa 53,3% do plenário renovado — índice idêntico ao da eleição de 2022. A Ales muda de cara, mas na mesma proporção da última vez.

O recorde que fica para a história: de 4 para 6 deputadas

É o dado que atravessa a eleição. Na legislatura atual, a Ales tem quatro mulheres. A partir de fevereiro de 2027, serão seis, 20% das cadeiras, o maior número já registrado na história do Parlamento capixaba. O recorde anterior era de 2002, quando cinco mulheres foram eleitas.

As seis deputadas estaduais eleitas, com votação final:

  • Camila Valadão (PSOL) — 61.501 votos. A mais votada do Estado pela segunda eleição consecutiva. Nascida em Vitória, ex-vereadora da capital (2020, com 5.625 votos), ela se tornou em 2022 a mulher com a maior votação da história da Ales, com 52.221 votos e agora quebrou o próprio recorde. Concentrou força na capital, onde recebeu 16.488 votos.
  • Karla Coser (PT) — 51.306 votos. Vereadora de Vitória, foi a quarta mais votada do Estado no geral. Estreia na Assembleia como a segunda mulher mais votada.
  • Açucena (PT) — 35.988 votos. Vereadora de Cariacica, estreia no legislativo estadual logo atrás da correligionária.
  • Janete de Sá (PSB) — 32.033 votos. Veterana da Casa, renova o mandato. Enfermeira formada pela Ufes e uma das fundadoras da CUT no Espírito Santo.
  • Raquel Lessa (PP) — 29.583 votos. Também renova a cadeira. Natural de Pancas, foi prefeita de São Gabriel da Palha por dois mandatos (2004 e 2008).
  • Jeesala Coutinho (MDB) — 26.734 votos. Advogada, filha do prefeito de Aracruz, Dr. Coutinho. Disputou em 2026 o primeiro cargo eletivo e chega direto à Assembleia.

Três renovaram mandato: Camila, Janete e Raquel e três chegam pela primeira vez: Karla Coser, Açucena e Jeesala. O salto de quatro para seis cadeiras não é apenas simbólico: amplia o capital eleitoral feminino dentro da Casa e desloca pautas de cuidado, segurança e direitos para o centro do debate, sustentadas por votação própria.

Os mais votados: a fotografia de um Estado polarizado

Camila Valadão liderou a votação nominal com 61.501 votos (2,85% dos válidos). Na sequência vieram Capitão Assumção (PL), com 60.097, e Pastor Dinho Souza (PL), com 51.895. A leitura é direta: a maior bancada da Casa se construiu sobre nomes da segurança pública, lideranças evangélicas e em partidos que fazem parte direta da polarização nacional, o mesmo campo que impulsionou Lucas Polese à maior votação da história para deputado federal no Estado.

Do outro lado, o campo progressista respondeu com a maior votação individual do pleito estadual: Camila Valadão (Psol) à frente, seguida de Karla Coser e Açucena, ambas do PT. O plenário que se desenha é, portanto, espelho fiel de um Estado dividido e sem que nenhum dos polos tenha maioria para impor agenda sozinho.

Os 30 eleitos, um por um

Confira a lista completa, na ordem de votação, com partido, votação e situação:

  1. Camila Valadão (PSOL) — 61.501 votos — reeleita
  2. Capitão Assumção (PL) — 60.097 votos — reeleito
  3. Pastor Dinho Souza (PL) — 51.895 votos — eleito
  4. Karla Coser (PT) — 51.306 votos — eleita
  5. Vandinho Leite (MDB) — 41.670 votos — reeleito
  6. Thiago do Casalpolicial (PL) — 40.068 votos — eleito
  7. Darcio Bracarense (PL) — 38.286 votos — eleito
  8. Açucena (PT) — 35.988 votos — eleita
  9. Franco Fiorot (Podemos) — 35.019 votos — eleito
  10. Pablo Muribeca (Republicanos) — 34.251 votos — reeleito
  11. Dr. Vitor Louzada (PL) — 33.226 votos — eleito
  12. Delegado Leandro Sperandio (Podemos) — 32.965 votos — eleito
  13. Mazinho dos Anjos (MDB) — 32.592 votos — reeleito
  14. Adilson Espindula (Progressistas) — 32.036 votos — reeleito
  15. Janete de Sá (PSB) — 32.033 votos — reeleita
  16. Peter Costa (Progressistas) — 31.537 votos — eleito
  17. Dr. Fernando Santorio (Progressistas) — 30.446 votos — eleito
  18. Dary Pagung (PSB) — 29.706 votos — reeleito
  19. Raquel Lessa (Progressistas) — 29.583 votos — reeleita
  20. Alexandre Xambinho (Podemos) — 28.205 votos — reeleito
  21. Jeesala Coutinho (MDB) — 26.734 votos — eleita
  22. Victor Coelho (PSB) — 26.006 votos — eleito
  23. Davi Esmael (Republicanos) — 24.289 votos — eleito
  24. Fabrício Gandini (Podemos) — 23.557 votos — reeleito
  25. Rodrigo da Cozivip (MDB) — 21.956 votos — eleito
  26. Hudson Leal (AGIR) — 21.016 votos — reeleito
  27. José Esmeraldo (União) — 20.394 votos — eleito
  28. Brizola Corteletti (AGIR) — 20.361 votos — eleito
  29. Delegado Danilo Bahiense (PL) — 19.477 votos — eleito
  30. Júlio da Fetaes (PT) — 17.775 votos — reeleito

Entre os estreantes, dois movimentos merecem registro. O primeiro é a chegada de quadros formados nas Câmaras Municipais, caso de Karla Coser e Açucena, vereadoras em Vitória e Cariacica, e de Davi Esmael (Republicanos), vereador de Vitória eleito com 24.289 votos, que transfere para a Ales uma base construída na capital. O segundo é a presença da segurança pública como porta de entrada: a Casa recebe três nomes ligados diretamente à área, entre delegados e oficiais.

A bancada federal e o Senado: o outro lado da conta

A mesma eleição definiu a representação capixaba em Brasília. Para o Senado, foram eleitos Renato Casagrande (PSB) com cerca de 995 mil votos, somando o capital político de três mandatos como governador e uma passagem anterior pela Casa e Evair de Melo (Republicanos), deputado federal em terceiro mandato com base sólida no interior e no agronegócio. O mandato é de oito anos, até 2035. A chapa tem Dante Nicchio (PL) como 1º suplente e Luiz Emanuel (Republicanos) como 2º.

Para a Câmara Federal, o Estado elegeu dez nomes:

  1. Lucas Polese (PL) — 419.735 votos — a maior votação da história do Estado para o cargo
  2. Jack Rocha (PT) — 142.187 votos — reeleita
  3. Dr. Bruno Resende (União) — 110.675 votos
  4. Gilson Daniel (Podemos) — 107.660 votos — reeleito
  5. Da Vitória (PP) — 107.466 votos — reeleito
  6. Marcelo Santos (União) — 82.365 votos
  7. João Coser (PT) — 77.242 votos
  8. Manu (PSB) — 69.398 votos
  9. Coronel Ramalho (Republicanos) — 60.085 votos
  10. Lucas O Federal da Direita (PL) — 43.973 votos

A bancada se distribui em sete partidos: PL, PT e União com dois cada; Podemos, PP, PSB e Republicanos com um cada. Dos dez, três foram reeleitos e duas são mulheres.

A análise: o que a nova Ales significa

A legislatura que começa em fevereiro nasce com três marcas que vão definir o ritmo da política capixaba nos próximos quatro anos.

A primeira é a fragmentação. Com dez partidos e a maior bancada chegando a seis cadeiras, não existe maioria pré-construída. O PL terá a maior fatia, mas precisará do MDB, do Podemos, do Progressistas e do Republicanos para aprovar qualquer coisa relevante. Isso desloca o centro de gravidade da Casa do plenário para as lideranças partidárias e transforma cada votação em negociação.

A segunda é a renovação com continuidade. Metade do plenário é nova, mas a taxa de 53,3% repete exatamente 2022. Ou seja: a Ales se renova sem se transformar abruptamente. Os 14 reeleitos funcionam como memória institucional de uma Casa que muda de elenco, mas não de rito.

A terceira, e talvez a mais estruturante, é a bancada feminina. Seis deputadas, o dobro e meio do que a atual legislatura tinha, e um recorde histórico. As três reeleitas trazem continuidade; as três estreantes, capital eleitoral novo. Juntas, passam a formar um bloco com peso próprio, capaz de pautar temas que antes dependiam de apoio externo.

Há ainda uma variável que escapa à Ales, mas condiciona tudo: o segundo turno da disputa pelo Governo do Estado, que colocou Lorenzo Pazolini (Republicanos) e Ricardo Ferraço (MDB) frente a frente. Quem se sentar no Palácio Anchieta em 2027 encontrará uma Assembleia sem dono, mais aberta à negociação, mais sensível a pautas regionais e menos previsível. Para o governo, é oportunidade e risco na mesma medida. Para a oposição, é espaço real de protagonismo.

O Espírito Santo sai desta eleição com uma representação mais plural em todas as esferas: dois senadores de campos distintos, uma bancada federal distribuída em sete partidos e uma Assembleia que, pela primeira vez, tem seis mulheres sentadas em suas cadeiras. É pouco para dizer que a política capixaba se reinventou. Mas é o suficiente para afirmar que ela já não cabe nos moldes antigos.